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segunda-feira, dezembro 02, 2019

É Natural mas fede


Tudo é muito natural. É como o mar
noturno, as ondas vão, as ondas vêm.
É como a cotidiana hipocrisia,
eu nem sei mais como se diz bom-dia.
É como o beija-flor querendo o sumo
da flor que entrega sem saber que dá.
É a gaivota planando, é natural,
o peixe que ela viu já foi-se embora,
desesperança alada, de perfil.
De frente é o olhar, que logo se desvia
da legião deserdada, é natural.
É a cascata descendo, é o girassol
humilde na esperança de uma luz
que lhe brinde o favor da poluição.
É tudo, tudo, muito natural.
A paloma cagando na cabeça
da princesa esculpida em solidão.
É como aquela antiga mão do índio
que eu vi tremendo na perfuratriz
num sovacão da mina boliviana.
É como a história natural das águas
que fazem dos rebojos o mau fim
dos homens que perseguem seringueiras,
destino duro do meu tio Joaquim.
É tudo natural na Venezuela:
o povo come ardências de óleo sujo
enquanto as autopistas te deslumbram
e forjas teorias on the rocks.
A solidariedade se transforma
em favor, os crimes em memória,
ninguém mais se comove e se acostuma
à dor da mordidura em pleno peito.
Quero voltar pro morro, é natural,
pois lá é que estão as curvas da chinela
da morena que um dia, fatigada,
queria mais, que eu fosse dentro dela,
como um rei, um brinquedo, uma agonia,
e então nós fomos juntos sendo a vida,
mas de repente a morte, é natural.
Tudo é tão natural, é como o céu
estrelado demais da minha terra
cobrindo o sonho opaco de um menino
— mordido de carapanã, caralho! —
que sequer sabe onde começa a fome.
As vozes do Salgueiro, na avenida,
porta-estandarte verde, me perguntam:
— E você sabe onde termina o céu?
E você sabe onde termina a terra?
E você sabe onde termina o mar?
Canto que não, naturalmente não.
Tenho muitos mistérios misturados,
curtidos em salmoura fedorenta.
Alguns serão matéria de mercado,
como o meu coração que, tantas vezes
exposto esteve em campos de amapolas,
mas nunca foi comprado, é natural.
Outros serão caterva de alçapões:
químico, turvo, o mundo me penetra
pelos poros mais podres, me rebelo,
não posso me entregar. Homem do Atlântico
pasto da luz latino-americana,
conheço a petroquímica ao reverso:
um fogo que se entrega à atmosfera,
fedento triste e inútil, enquanto hormônios,
enquanto pernas, enquanto fervores,
na solidão soturna das cidades,
na entressombra dourada das favelas,
se abraçam procurando a primavera
numa chama que nunca vai jamais
erguer a liberdade, é natural,
desse escuro porão, refúgio do homem,
mordido pelo sol do escorpião.

Thiago de Mello, Poesia comprometida com a minha e a tua vida, 1975.

quinta-feira, abril 11, 2013

Só não me xingue!

Desde os tempos do orkut e agora o facebook veio com força total para popularizar frases de letras do Cazuza, Renato Russo, Chorão, heuheue  entre outros. Eu não vejo como uma banalização negativa, mas o que acontece muitas vezes é certas frases merecem mais reflexões do que simplesmente a propagação.
A questão da identificação é o que bate forte. Tem uma música dos anos 80 que faz muito sentido pra mim. Quando o Cazuza diz que “quer a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta mordida”. E só esse inicio já me faz passar horas pensando sobre que fruta mordida é essa.
A minha sorte seria da experiência, da maturidade, da segurança. Um amor que te protege sem machismo, um carinho verdadeiro mesmo que ele possa parecer bobo.  Um amor que confia por que sabe que fidelidade é uma questão de caráter.
Outro dia conversando com um amigo que é casado há dez anos com a mesma mulher, ele tava falando sobre como lida com ela, chega no local sabe o que ela vai pedir mesmo sem nunca ter olhado o cardápio. Por mais que ela naquele dia não queria aquele prato, ela acaba comendo por não questionar a ação dele.
Claro que quando o casal chega a esse nível de intimidade realmente não há muito o que questionar, afinal de contas, como diria Agenor de Miranda Araújo Neto, quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu.
Parafraseando agora o Criolo, eu dou licença pro amor, deixo ele entrar e amando eu me acalmo e me desespero. Me encanto e venero. Mesmo que no fundo, chegue a pensei que quero só a paixão. Fogo e segredo.