
Renata: Primeira pergunta não pode ser outra, qual é a sua expectativa para o show em Manaus no próximo dia 19/06?
Renata: Qual o lugar mais louco que vocês tocaram? O que tinha lá?
Juninho: Nossa, lembrar de um show assim em específico fica complicado, já tocamos em muitos concertos malucos por aí, mas vou citar 2 que vieram à minha cabeça: O primeiro foi em Aracajú, junto com Mukeka di Rato, 120 noites de somoda e uma banda que chamava “Merda de Mendigo” (rs). Sem tirar que estávamos muito longe de São Paulo, e tínhamos ido pra lá de ônibus, começou a chover e o teto do show era de palha, inundou tudo durante o show, e de baixo do palco estourou o esgoto e já viu! Foi uma merda total pra todo lado, foi insano, engraçado e inesquecível. O segundo foi em 2005, em Santiago de Compostela na Espanha. Nesse dia tocamos numa festa de halloween, onde toda a cidade estava fantasiada de monstro, inclusive no local do show havia uma decoração de terror, tava legal demais! Bom, o show começou, e logo no começo quebrou o amplificador do baixo. Daí eu o liguei direto na PA. Passou alguns sons e quebrou o amplificador da guitarra. Daí ligamos o baixo com vários pedais, direto na PA com muito ruído, e o Daniel tocou baixo e cantou, e eu fiquei fazendo a guitarra com a boca!! (Rsrsrs). Foi bom demais, até uma cover do Motorhead tocamos lá, e o solo eu fiz igualzinho, (rsrsrs) mas com a boca mesmo!!
Renata: Nessas turnes o que mais vocês sentem falta?
Juninho: Açaí, fruta com gosto de fruta, e não gosto de plástico. Arroz com feijão. A cama de casa, enfim, umas coisas simples do dia a dia daqui do Brasil.
Renata: Atualmente você toca em três projetos, fazendo turnê com cada um, não dá um nó na cabeça?
Juninho: Eu estou tocando no Discarga, Ratos de Porão e Eu Serei a Hiena. São 3 bandas que tocam relativamente bastante, mas a prioridade é o Ratos, então só quando não tenho nada marcado com o Ratos que acabo marcando shows pro Discarga e Hiena. Não dá nó nenhum na cabeça, eu toda vida toquei sempre com vários grupos ao mesmo tempo, estou acostumado, tenho boa memórias para as músicas, e o mais importante é que são bandas completamente diferentes musicalmente.
Renata: Que coisas que mais chamam atenção pelo Brasil a fora?
Juninho: O Brasil é um país que trás muita curiosidade para os gringos, sempre nos shows isso nos dá uma "vantagem", tipo tem muita gente que fala assim: “vou ver uns caras do Brasil que vão tocar hoje por aqui” Ou tipo “vou comprar um disco deles, os caras são do Brasil!” Daí com isso você acaba ganhando um destaque no meio de tantas bandas que tocam lá, e na parte musical o Brasil sempre teve grande nome dentro do punk/harcore lá fora. Mas no dia a dia de uma turnê a gente sempre acaba conversando com muita gente que pergunta de carnaval, futebol, política, nosso costumes, daí é bem legal que acaba rolando um grande intercâmbio cultural.
Renata: Falando mais do Juninho, eu já li que o hardcore faz parte da sua vida desde moleque, qual tua posição quanto a essa nova geração?
Juninho: Eu quando comecei a sair de casa, ouvir som, já me misturei com o pessoal do hardcore, e tenho uma formação bem da minha época mesmo, tive muito contato com atitudes radicais e tal, e isso me formou uma consciência séria com o hardcore e a forma de como se viver. A geração nova é um pouco diferente, não tem muito radicalismo saudável, são muitas coisas fúteis, são coisas mais superficiais, desde as idéias à forma de ter um disco, que é baixar da internet ao invés de correr atrás dos LPs. Mas como essa "geração nova" é bem grande, temos grande parte dela fazendo acontecer muita coisa, muitos shows, muitas bandas boas, e isso é ótimo para todos, serve de exemplo para os velhos que só reclamam e serve também de incentivo pra quem está chegando agora. A única coisa que eu faço questão que exista, é a mulecada nova correr atrás das origens, saber mais das histórias, do passado do punk/hardcore, conhecer as bandas antigas, pra daí você ter uma noção de onde veio tudo, como cresceu e como está no dia de hoje.
Renata: Com essa correria toda, ainda dá tempo de ouvir alguma coisa? Que bandas você ouve?
Juninho: Opa! ouvir som é a coisa que mais faço da minha vida. Sempre compro discos, e estou sempre correndo atrás de música nova e antiga, de preferência
Renata: E pra entrar no Ratos? Teve um processo pra passar de roadie pra membro oficial?
Juninho: Então, eu comecei a trabalhar com eles de roadie, pois foi numa época que o Ratos tinha ficado parado por causa da operação de redução do estômago do Gordo. Eles tinham outros roadies, mas como foi de 1 ano a pausa da banda os caras saíram pra trampar com outra banda. Daí nessa época eu conheci melhor os caras, trampando direto, viajando direto, até que poucos meses depois, o Fralda (baixista antigo) pediu pra sair. Como a banda tinha muitos shows marcados eles precisavam de uma pessoa que soubesse já tocar os sons, não tinha muito tempo pra "testes". Então como eu tava direto com os caras eles me chamaram. Fiquei uns meses de "músico contratado", daí depois passei a ser um integrante normal da banda, foi uma coisa muito foda que aconteceu na minha vida, pois sempre foi uma banda que eu gostei muito de ouvir desde moleque.
Renata: Em relação a composição de músicas, dá pra compor em turnê ou só em casa ou estúdio de uma forma mais sossegado?
Juninho: Em turnê não sai nada, você fica ali concentrado nos shows e não consegue pensar em outras coisas. Com o discarga funciona na base da pressão, tipo a gente marca a gravação e fala: “olha! Daqui a 2 meses temos que gravar 15 sons!”. Daí a gente marca muitos ensaios, e a coisa flui bem. Sempre foi assim desde o começo da banda, e sempre funcionou legal, então vai continuar assim! Rsrsrs.
Renata: O mercado independente tem crescido de uma forma incalculável, principalmente com a influencia da internet, isso ajuda na divulgação do material ou acaba exigindo ainda mais de cada banda? E isso é importante pra você?
Juninho: O Discarga tem um público fiel, do tipo da galera que gosta de correr atrás das coisas, gosta de comprar discos, gosta de ir em shows, então mesmo com essa mudança radical de vendas de discos, nós estamos indo bem. Nessa última turnê na Europa em 2008, nós vendemos muitos discos, muito mais do que pensávamos que íamos vender, foi ótimo! A influência da internet nos ajuda sim, e bastante, a divulgação é bem mais ampla, atingimos gente de mais lugares, e o mais importante de tudo é usar a internet para manter a cultura antiga de se fazer as coisas, mostrar o valor de ter um disco, ir a um show. Acho que incentivamos bastante a galera a ser assim, mostramos que não somos um produto, e acredito que usamos a internet de uma maneira saudável, onde as pessoas tem um acesso fácil à banda, as pessoas escrevem pra gente, conversam nos shows, então alcançar esse resultado é bem gratificante.